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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

DITADURA DO CRISTIANISMO




Por Felipe Matos.
Editor.

Apesar de crer nos fenômenos da espiritualidade e na Umbanda como um dos "canais de condução", devo esclarecer que antes de tudo, sou cidadão brasileiro. Minhas construções subjetivas são oriundas das experiências vivenciadas no mundo material, dos contextos históricos e culturais aos quais fui submetido até o momento.  Não acredito na Umbanda somente como expressão religiosa,  acredito  também que Ela expresse um simbolismo sobre os fenômenos sociais do país, representando profundamente parte da identidade cultural do Brasil. Por isso, ALERTO meus amigos e leitores que este texto representa um posicionamento político, onde qualquer cidadão  religioso ou não tem o DIREITO de realizar. Aos que preferem textos doutrinários com conceituações sobre os ritos, pesquisem neste espaço, existem boas alternativas.

A religião (meio de ligação do homem com o sagrado ou sobrenatural) tem aspecto "neutro" em nossa constituição, ou seja estão dissociados quaisquer privilégios, perseguições ou restrições de base legal. A garantia e o estabelecimento à meios de coexistência entre todas as manifestações, às liberdades de culto, de expressão e associação são questões fundamentais à normalidade democrática e devem ser preservadas. Para quem ainda possa ter dúvida quanto essa condição, consulte aqui o Art. 19 da Constituição Federal de 1988. Se preferir refletir um pouco mais, recomendo esse interessante artigo ( Espiritualidade no Estado Laico - por Alexsandro M. Medeiros).
Outro aspecto importante de ressalvar liga-se às "estruturas", "setores" ou "instituições" sociais. É licito que organizações existam, que pessoas se associem por afinidades, interesses, ilusões utópicas ou simplesmente por fé. Entretanto, cabe-nos identificar e estabelecer definitivamente que fazemos parte de uma pequena "célula" constituidora de um organismo muito maior. Em outras palavras, quando saímos de casa para expressar/praticar nossa fé estamos produzindo um ato em sociedade, logo, sabermos até onde podermos ir e até onde podem ir conosco é o mínimo para convivência pacifica. Mas se ainda estiver com dificuldade de assimilação, este outro  pertinente artigo (Estrutura Social - Instituições Sociais) pode ajudar.
Agora apenas para finalizar esta introdutória também é conveniente que entendamos o real significado ou sentido da expressão "instituição religiosa". Se escolhermos a sociologia para analisar o tema, veremos que a religião está na classificação de "Instituição Reguladora", ou seja, é por base, essencialmente uma construção humana ao longo do tempo que "regula" - "controla" - "conduz"- "governa" - "estabelece" a vida de indivíduos. No caso da religião ela também responde aquilo que materialmente não temos respostas. Por isso, geralmente preenchem vazios oportunizando a vazão da fé. Fé em crenças, dogmas, tradições, comportamentos sociais e sobretudo, da criação de subjetivação do pensamento.
Deste modo podemos afirmar que ser religioso é entre tantas especificações envolvidas, um ato de posicionamento político também, de enquadramento por um perfil sociocultural. Dos pensadores sociológicos, interponho Marx e Weber. Talvez suas contribuições indiquem mais explicitamente que as religiões também são instituições políticas. Em Durkheim não menos importante, temos o entendimento entre o que é social e religioso, do ponto de vista simbólico da vida em sociedade.

..."A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. [...] A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como é o espírito de situação sem espiritualidade. Ela é o ópio do povo. (MARX, 2010)"...
  ..."Surgiu uma ética econômica especificamente burguesa. Com a consciência de estar na plenitude da graça de Deus e visivelmente por Ele abençoado, o empreendedor burguês, desde que permanecesse dentro dos limites da correção formal, que sua conduta moral estives se intacta e que não fosse questionável o uso que fazia da riqueza, poderia perseguir seus interesses pecuniários o quanto quisesse, e sentir que estava cumprindo um dever com isso. Além disso, o poder do ascetismo religioso punha lhe à disposição trabalhadores sóbrios, conscienciosos e extraordinariamente ativos, que se agarravam ao seu trabalho como a um propósito de vida desejado por Deus. (WEBER, 2007)"...
Após entendermos os conceitos de religião, Estado laico, instituições sociais, instituições reguladoras e analisarmos a religião por elucidações dos pontos de vistas de alguns dos principais pensadores da sociologia, começamos a compreender ser necessária uma autocrítica para o exercício cidadão da fé. Ponderações sobre o caminho que estamos percorrendo precisam ser emergencialmente pensadas. Analisarmos se a conjuntura da "colonização cultural", neste caso, não mais só a judaica-cristã-católica mas preponderantemente as contundências protestantes tradicionais, pentecostais e neopentecostais. 
Sem meias palavras, caminhamos aceleradamente para a consolidação de um Estado Cristão. Não me refiro a tradicionalidade do Brasil que por muito tempo está ponta das pesquisas estatísticas entre fiéis. O Estado Cristão ao qual me deparo, é o discurso político, moral e cultural que cultiva o consciente coletivo no momento. Disseminado por redes sociais como remédio aos males da convulsão social e política que atravessamos. A não ser que o terrorismo midiático/tecnológico há muito tempo em marcha, tenha forjado esse quadro equivocado (?) em nosso sistema de "crenças" sociais. Minha indignação não é somente com grupo político vitorioso no último pleito nacional, a medida que grupo perdedor são representantes de valores duvidosos e populistas, para ser bem transigente. Então, antes que me enquadrem nos rótulos disponíveis, previno-vos, minhas preferências estão entre as mais estritas democráticas, ao passo que nunca poderia apoiar os grupos que se apresentaram no segundo turno. Os flagrantes declarados antidemocratas e, àqueles que fazem de conta lutar pela sobrevivência da democracia.
Irrefutáveis são as históricas construções da cultura ocidental, tal como, por vários pertencimentos, somos partes constituintes. Entre essas elaborações, a religiosidade marca profundamente a formação de nosso povo e, através dela, algumas das mais nefastas práticas foram afirmadas como desígnios divinos. Tentarei por breves tópicos elucidar o atento leitor de um retrospecto histórico/cultural da ditadura cristã em nosso inconsciente coletivo.

Importante observarmos que as referencias deste texto não são apologéticas, difamatórias ou generalistas. A função aqui é outra e bem canalizada. Até para os mais radicais anticristãos ficaria muito difícil defender que, todo e qualquer cristão (nesse caso refiro-me aos fiéis), se prestaria a apoiar alguns dos poucos exemplos aqui utilizados, ao contrário, para que empreendimentos destas envergaduras ocorram muita manipulação de discursos e práticas - das massas - precisam ser executadas. Se o atento leitor pesquisar minimamente, encontrará um referencial pequeno é claro, sobre os setores ligados ao cristianismo que condenaram os empreendimentos.
Outros temas ficaram de fora, a medida que o objetivo é por via das amostras elucidar aquilo que convenciono chamar de Ditadura do Cristianismo. Entretanto, salientar a questão do pecado para amedrontar, da concepção de "família tradicional", dos "bons costumes" contra a cultura da corrupção, da demonização de ideologias progressistas ou de esquerda contrárias às pautas ultraconservadoras, porém, necessárias ao "jogo" do ambiente democrático e por fim, talvez a mais negativa, vitimização de um processo midiático para "calar" a voz dos "eleitos pelo altíssimo". 
Serão tão indiscutíveis assim todos os argumentos apresentados pelo corpo político bíblico? Os "eleitos" do senhor realmente possuem toda a graça da transformação e salvação  pelas suas opções de fé e de construção subjetiva? São convicções da fé, somente dela, a demonização do pluralismo político-ideológico tão necessário às democracias? É justo e licito que por coesão político-partidária, setorista e parcial uma fração da sociedade tenha que abdicar de princípios constitucionais? Enfim, quanto mais me pergunto, menos consigo encontrar respostas. E as respostas não aparecem, simplesmente porque todo o cenário desfavorece. Analisemos as conjunturas...
O Presidente da República além de administrar a economia, nomear ministros, decretar leis e procedimentos, desenvolver relações internacionais, praticar os planos estratégicos do governo e exercer o comando das forças armadas entre tantas outras coisas, deve REPRESENTAR e MEDIAR os conflitos que no caso brasileiro representa um universo multifacetado de culturas, filhas da miscigenação. Ou seja, presidir é tarefa de pessoa com espírito REPUBLICANO. Presidir está longe de concorrer a presidência, na disputa, por mais que não me pareça lícito, a radicalização do discurso é alternativa para o ganho de votos, porém, o exercício do mandato deve ser pautado em práticas universais (lógico que não me refiro às das Igrejas).
Não estou aqui para debater se o vídeo das declarações X,Y ou Z são falsas ou foram utilizadas fora de seus contextos, disto o período eleitoral tratou. Minha maior preocupação é com a representação do conjunto de valores do candidato eleito, das maiorias eleitas para as bancadas nas câmaras federais e estaduais, logo, com o projeto de primeiro escalão do governo que se anuncia, visto quer até com juiz salvador da pátria, está no time. Quando nos deparamos com o discurso pós eleição, na primeira "coletiva improvisada" a fala inaugural foi: "fui escolhido por Deus", após um mini-culto em rede nacional. Quarenta e oito horas depois, estava no púlpito de seu Pastor, veja aqui, profetizando que a bíblia "conserta" o ser humano e o leva para a "verdade da vida". Ora e se não acreditarmos nela, como fazemos? Não podemos deixar de registrar, que no mesmo cerimonial, a retórica da sedução a favor do conceito de Estado Laico esteve presente, salientada pelo nome de Jesus!
É licito que até o Presidente tenha sua orientação de fé, mas que os discursos sobre esses valores se restrinjam à ele, sua família, amigos e aos círculos onde professa sua fé, não à todos da nação como receita de felicidade ou de triunfo sobre os derrotados politicamente. Muito menos como discurso institucional. Não esqueçamos que a Política assim como a Religião são construções humanas...
Pensar que o arbítrio político e anticonstitucional poderá vigorar como antes em nossa história, não creio. Mas, como o populismo caudilhista da pseudo esquerda vigorou em detrimento de direitos fundamentais, para o aprimoramento da consagração dos esquemas corruptos e das grandes fortunas, penso, que a Ditadura do Cristianismo têm a mesma face da moeda (Legitimada pelo discurso que produz prática social-cotidiana nas pessoas de forma ilusória). A estratégia foi bem estruturada, até o caudilho foi produzido, bem como um sincrônico conjunto de "medidas". Abaixo algumas poucas, porém flagrantes:  
  • Produziu um salvador (melhor dizendo MITO); 
  • Estigmatizou o satanás em todos àqueles que se opõem de suas ideias políticas (como o Santo Ofício contra os hereges), como as ideologias de centro e esquerda;
  • Desconstrói e relativiza conceitos históricos que por rigorosos métodos científicos são apresentados; 
  • Idealiza na sociedade a "família tradicional brasileira" (quando a realidade histórica do país nos revela outras alternativas); 
  • Coercitivamente quer produzir o terror na atividade docente (a única historicamente reconhecida como o alavancadora das maiores nações do mundo, e no caso brasileiro, já possui garantias constitucionais de manifestação dentro ou fora do ambiente escolar); 
  • Produz a narrativa de desvio patológico aos seres humanos, LGBTs, que poderiam ser corrigidos mediante tratamentos;  
  • Aderiu ao politicismo do judiciário com a nomeação antecipada do "im"parcial salva pátria brasileiro; 
  • Trata remanescentes de comunidade quilombolas e indígenas desrespeitosamente deslegitimando seus contextos culturais/sociais/econômicos/históricos; 
  • Induz o trabalhador brasileiro pensar que ele é um "fardo" para as organizações e para os governos. 
  • Propõe política nacionalista as avessas, quando anuncia a venda dos maiores ativos nacionais para o capital estrangeiro, nacionalizando nossos recursos em outros países.   
São com esses valores que majoritariamente teremos que lidar nos próximos quatro anos, ou seja, com o discurso antes de tudo que legitima a prática social daqueles que cegamente acreditam nos salvadores. Na política ser cristão, budista, pacifista ou armamentista não é sinônimo de honestidade e competência. A política que construímos, dizem a maioria, infelizmente, não é legal nem ser discutida pois afinal são todos corruptos, não é mesmo?
É por pensarmos assim que grupos como este (os salvacionistas) e outros que já chegaram ao poder e nos comprometem a existência, a língua, os costumes, as roupas, o Deus ou deuses, os meios de locomoção, aquilo que estudamos, onde e como moramos, como nos deslocamos e sobretudo, os pré conceitos que criamos para aceitar tudo na mais absoluta tranquilidade como, desígnio divino, de uma obra cem por cento humana.       
No caso da Umbanda como expressão da religiosidade brasileira, provavelmente assistiremos mais uma acentuada evangelização em detrimento dos elementos ameríndios e africanos, como antes, num passado não tão distante, produzimos. Talvez, o que importe mesmo é continuar vivo e ser tolerado. Respeito... Este tal, deixemos para outra reflexão...
           
Glória a Deux!                         
                   
                
*todos as referencias deste texto (artigos científicos, matérias jornalísticas, indicações de livros, portais e vídeos)  estão linkadas. São materiais de apoio ao tema proposto.


               

sábado, 23 de junho de 2018

EM BUSCA DE UMA FILOSOFIA PARA A UMBANDA




Primeiramente, faz-se necessário pontuar a importância deste “Projeto-Revista”, à medida que sua concepção, sobretudo, multiplica a oferta de escritos sobre Umbanda nas suas mais diversificadas expressões.
A relativização da oferta de textos reflexivos em termos quantitativos, tendo em vista as tendências tecnológicas utilizadas como ferramentas de relacionamentos, como sistematização de campanhas publicitárias e de produção de conteúdos, hoje é mais abrangente. De fato esse é o contexto, nisso creio que a maioria concorda. Contudo, refiro-me às contradições existentes no cerne deste aspecto. As simplificações, a reprodução de conceitos, a banalização dos fundamentos e a comercialização da crença se apresentam de forma explícita neste processo. Como nós umbandistas podemos, contraculturalmente, agir para diminuir os abismos existentes? Pensando, alguns dirão. Por isso, a produção textual independente - seja informativa ou literária - torna-se peça chave neste processo.

Sobre a Filosofia, esclareço, minha preocupação não é formar paralelos com conceitos ideias da religião de Umbanda em consonância às teorias filosóficas historicamente reconhecidas. Por exemplo, estudos que aproximem os conceitos gerais sobre “Moral e Ética” no olhar umbandista, ou seja, quais conjuntos culturais, simbólicos ou comportamentais definem o umbandista de formação em sociedade? Ou quem sabe, a Umbanda por ser essencialmente inclusiva e tolerante, possa equivaler-se por teorias políticas da filosofia. Enfim existem exemplos consistentes de que a Filosofia, pelo menos em parte está presente na religião.


Mas a reflexão por aqui, compreende a busca por um projeto filosófico generalista quando nos referimos à Umbanda. Será que é possível? Para tanto, necessitamos entender definições acerca do que é Filosofia. As variações são muitas, talvez, não exista consenso para esta definição. Para efeito de compreensão, transcrevo aqui a referência do livro “História da Filosofia” de Padovani e Castagnola, 10ª edição, 1974. “Filosofia é a ciência das causas primeiras, para resolver o problema da vida”. Em outras palavras, é a busca por resolução dos problemas sejam eles científicos, religiosos, políticos ou até individuais, pela força da razão sem dogmas e autoproclamação de verdades absolutas.
Um dos “ramos” de estudo da filosofia é a religião. Nele os pensadores se debruçaram por levantar aspectos básicos de investigações filosóficas. Para citar alguns dos mais importantes, temos: Será que Deus realmente existe? O que é a fé? Vivemos com livre-arbítrio? Enfim, este ramo filosófico preocupa-se em investigar a finitude das percepções religiosas acerca da nossa natureza.

Contudo, a Umbanda apresenta formação eclética, abarca um conjunto de valores universais sem possuir fonte comum. O fenômeno social de construção umbandista tem pouco mais de um século de vida e traz consigo significações multiculturais. Heranças africanas nos deixaram os orixás; as teorias de Kardec nos trouxeram a crença no mundo espiritual e as leis que estamos submetidos: dos povos nativos a pajelança e o ancestral conhecimento sobre a natureza; dos povos europeus a cristianização e o sincretismo com seus santos. Racionalizar a fé umbandista é entender de que maneira ela foi elaborada no plano material e em quais circunstâncias? Como está seu desenvolvimento ao longo dos anos? Quais são seus objetivos? O que ela espera do umbandista e o que o umbandista espera dela? Quem a representa seja na literatura, na ciência ou nas artes desenvolvendo suas diretrizes maiores? Ela cumpre o papel que se propôs? Talvez sejam estas as pistas para traçarmos uma investigação racional acerca dela. No mais, entendo, resumir-se tudo a uma questão de fé e de diversidade cultural. Fé sem dogmas, preconceitos ou imposições. Diversidade cultural nos conceitos, ritos e significados.

Faço votos para que a Filosofia compreenda e explique cada vez mais sobre o mundo. E que a Umbanda, como representante de símbolos e caminhos, esteja nele.



OBS.: Esse texto foi elaborado como parte de uma colaboração para o projeto Revista do Leitor Umbandista, em conjunto ao Blog do Leitor Umbandista.



domingo, 3 de setembro de 2017

COLUNA DO EDITOR-06: A Retórica da Intransigência contra a Política de Tolerância


A motivação para escrever este texto nasceu na mesma velocidade em que meus sentidos liam ou buscavam subsídios racionais para entender as entrelinhas, além da mera informação, da notícia quase imperceptível publicada em diversos portais algumas semanas atrás. O receio de não conseguir materializar as indignações, de não produzir efeitos contrários à "ameaça" do discurso, povoaram meus pensamentos. Porém, mesmo diante da eminente inabilidade na produção narrativa, fui vencido ou persuadido, pela ideia utópica de respeito e convivência comunitária.
Certamente o texto da Profª Anna Gicelle - O Historiador e o Zé da esquina - na mesma medida que oferece um rigoroso exemplo do que é possuir um nível de criticidade acerca de determinada conjuntura, mantém vivo o sentimento de não nos acomodarmos, tampouco, silenciarmos ante perspectivas nada democráticas.
A alarmante notícia, porém, sem status de "novidade", foi um recado do Pastor Silas Malafaia para dois entre os mais cotados presidenciáveis em 2018, publicada nos maiores portais da internet (abaixo três links para consulta): 
  1. Folha: Quem seguir o politicamente correto vai dançar, diz Malafaia a Alckmin e Doria
  2. Estadão: Malafaia diz a Alckmin e Doria que evangélicos não vão negociar "ideologia de gênero"  
  3. Globo.com: Malafaia diz que não apoiará candidatos que defendem ideologia de gênero. 
É inegável, mesmo que a maioria não perceba, que o contexto político mundial, tem caminhado em franca marcha para o predomínio dos setores mais conservadores. Em alguns casos, até para os mais radicais. A tradição política do Brasil, historicamente elitista e conservadora,  demonstra, deliberadamente, o plano em curso de dominação ideológica e cultural. Para isso, é necessário ocupar significativa parcela da política institucional, através de diversos setores. Apoiar partidos e candidatos que defendam interesses unilaterais em detrimento das resoluções de interesse geral, na negociata e barganha do toma lá - dá cá. É neste afluxo que se encontram os maiores setores dos chamados pentecostais e neopentecostais, além de outras tradicionais denominações cristãs mais veladamente. E que se registre, não vejo a participação do Cristo nisto tudo.
O Modus Operandi é bem claro faz algum tempo. Apoiam, patrocinam e elegem seus defensores. Negociam bancadas e lideranças nas mais variadas atuações, e pior, em todos os níveis institucionais(municipal, estadual e federal, em todos os poderes). Assim pouco a pouco, foram tomando forma de bloco, partido, setor ou qualquer outra coisa do tipo. 

Sua principal bandeira "Salvar o país de todo o MAL"!
O "mal", está escondido nas famílias (Aquelas que fogem da constituição básica e tradicionalista), nas escolas que constitucionalmente devem ser laicas e apartidárias (constituição? Estado laico? apartidária?), nos livros (pois o único sagrado e incontestável é a BÍBLIA), na televisão (com execessão dos programas que eles mesmos produzem), na música (deve ser por isso que a indústria Gospel tem se desdobrado e produzido nos mais variados estilos, talvez para salvar esta arte humana), no teatro, cinema, nas universidades, enfim, onde haja relacionamento humano, produção de ideias, de reflexões, de contraditório e da crítica que contribua para o desenvolvimento do pensamento. 
Confundem apenas para complicar, "Livro Sagrado" com "Constituição", pregação evangelista com "Discurso Retórico e Político". Assim produzem efeitos mágicos nos seguidores desinformados, carentes de senso crítico e hipnotizados pelas demonstrações de poder. Qualquer um que esteja fora destes padrões, é obra de Satanás! Sua chances? Converta-se, contribua e VOTE naqueles escolhidos pelos "Messias".

O termo "tolerância" por si só, já é quase um insulto a coexistência dos diferentes, em alguns dicionários/portais representa "aceitar" ou "suportar". O mais adequado não seria respeitar? Há quem defenda que tolerar é um ato de respeito. Respeito quem pensa assim. Pois bem, vejamos como é claro o jogo retórico daqueles que não "suportam" e "aceitam" as diferenças, amparados na política de Estado onde suas aspirações podem validar pactos sociais para determinarem toda e qualquer "anomalia", conforme seus princípios. Não se limitam as esferas - de identidade de gênero ou sexualidade - combatem todas as manifestações, sejam elas, culturais, filosóficas, religiosas, artísticas, políticas sempre com o discurso da demonização. A isto, entendo, como a retórica da intransigência...                         

Por isso insisto! Antes de umbandistas, somos humanos, parte integrante de famílias e comunidades. Não devemos aceitar calados tudo que nos é imposto! Principalmente quando o projeto é atingir nossas liberdades.
Relembro que a proposta desta coluna, não é tratar ou falar, única e exclusivamente de Umbanda para umbandistas, esta seção está a serviço de todas as possibilidades de um bom debate, provedor de críticas, reflexões e ideias. Tomare que discordem das ideias expostas, mas que tenham outras tantas que não justifiquem intransigência e intolerância. Escreva-nos, defenda suas posições!    

Axé! Boa semana!

O Editor.                            

domingo, 21 de maio de 2017

COLUNA DO EDITOR-05: A primeira vez a gente nunca esquece !


Amigos e leitores. 

Navegando pela fanpage do blog, a fim de atualizar algumas postagens e responder alguns comentários, realizei, um pequeno e rápido passeio por algumas timelines de outros blogs parceiros. Me deparei, com o que talvez seja um dos maiores clichês, dentro dos círculos que se publicam Umbanda e assuntos afins "A primeira vez agente nunca esquece". Foi então que pensei: Como ainda não escrevi minha própria experiência, como novo visitante em um terreiro ?!? 
Ainda tenho boa memória, sobretudo, neste caso específico, ainda são vívidas as lembranças do evento e as circunstâncias sobre as quais reforçaram seu acontecimento. Me reservo o direito de resguardar as identidades das pessoas envolvidas, do local, e das entidades espirituais que nos assistiram naquela dia...


A PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE ! 

Devo começar o relato explicando ao leitor que minha experiência regular como frequentador de terreiro iniciou-se ali por volta do ano de 2003. Entretanto, é necessário esclarecer que até essa época, eu já havia tido contatos esporádicos com médiuns em ação, para ser sincero, desde a infância,  com "entidades" em trabalhos "familiares", pois, tenho na família de minha mãe e também na de meu pai, tias com mediunidade ostensiva de incorporação, e vez ou outra recebiam suas entidades em casa mesmo. No mais, por pertencer à um grupo familiar grande e diverso, contudo, "tradicional", sempre fomos também católicos "não praticantes", mesmo que muitos,  como, por exemplo, minha mãe não admitam ou se quer queiram entender qual o significado de tal condição.  
Voltando ao acontecimento em questão, o ano era 2003, estávamos ali próximos do inverno, em meio ao outono. Nesta época eu ainda cursava o ensino médio, último ano, portanto, completaria dezoito anos em meses. Fase muito turbulenta essa tal de adolescência, muitas confusões, desencontros, dúvidas e sonhos. Não posso dizer que tive a melhor, tampouco a pior das experiências, tive apenas a minha. Recordo que nesta época desentendimentos familiares, o falecimento do meu pai (que ocorrera quatro anos antes), e muita presunção, típica dos adolescentes e supervalorizada pelo meu perfil um tanto quanto autocentrado, me faziam passar instabilidades, desentendimentos e desarranjos. Nunca tive problemas com a marginalidade ou com o uso de drogas ilícitas, somente mesmo desorientações de fundos emocionais e familiares. Vivia também um momento cético quanto a questão espiritual do ser humano, os últimos contatos que houvera tido com espíritos (nas tais sessões familiares) , não foram, naquele momento, segundo minha ótica "convencedores" de alguma verdade, se esforçavam demais para se mostrarem convincentes.

Um primo, com quem à época tinha um contato diário e compartilhávamos o mesmo círculo de amizades, incluindo também outros primos e amigos em comum, já havia me convidado para conhecer um centro, no bairro vizinho, próximo de onde morávamos, que ocorriam trabalhos de mesa branca e Umbanda. Eu sempre refutava, negava o convite e, ainda travava com ele diversas discussões sobre a real necessidade de irmos a um lugar desses para buscar auxilio nas resoluções de problemas, em determinadas ordens. Toda a família deste primo conhecia o local já algum tempo, e ele, sempre que podia, durante nossas conversas me alertava sobre o tal terreiro. Após um desentendimento sério em minha casa, decidi, em certa oportunidade, voltar atrás naquelas passageiras e confusas convicções e acabei aceitando o convite. Ele me disse: "Combinado então, vamos na próxima quarta-feira. Você vai ver, vai gostar". Vale ressaltar que até hoje a casa funciona com trabalhos às quartas feiras. 
Não me lembro com exatidão em que dia combinamos irmos juntos ao local, lembro-me apenas, dos dias que antecederam serem os responsáveis por um misto de sensações que variavam de dúvidas, receios, deboches,  mas sobretudo, uma ansiosa expectativa.
Durante a semana, nada mais restava a um jovem estudante que não trabalhava regularmente, a não ser ir para escola. No dia do evento, me recordo com nítidas imagens, um encontro que tive no ônibus de volta para casa após as aulas, com o irmão do primo com quem eu iria no centro. Portanto outro primo também. Em algum momento de nosso bate papo, ele me disse: " Meu irmão falou que hoje, vocês vão lá né?". Continuou: "Eu queria muito ir também, porém, meu compromisso impede, assim que der vou arrumar um tempo para ir. Lá é bem bacana...". Eu, do alto de minhas certezas e esbanjando minha alto confiança, respondi: "É combinamos sim. Vou lá com ele, ver esse lugar presta mesmo...". Ainda continuamos, durante toda a viagem conversando sobre os trabalhos do centro e outros assuntos. Recortei este momento porque entendo, ser o ponto fundamental no desenrolar dos fatos.

Passado às dezenove horas estávamos no local, meu primo como de habito(risos!), havia se atrasado um pouco e ao chegarmos, percebemos que o trabalho estava aberto. Lugar humilde, pequeno, que não ostentava nenhum luxo a não ser, mais ou menos umas vinte e cinco pessoas que aguardavam para serem atendidas, em sua maioria de pé e até para fora da única porta que a sala de três por quatro metros oferecia. No centro da sala, uma mesa com toalha branca tomava boa parte do espaço, a imagem de São Francisco, um crucifixo, uma grande bíblia entre outros objetos adornavam a "base" de onde se dirigiam os trabalhos. Chegamos a tempo de escutarmos parte da palestra de uma senhora que presidia a mesa dos trabalhos, tratava-se de uma incorporação de um de seus mentores, posteriormente explicado por meu primo. Os atendimentos seriam feitos pela linha de pretos-velhos naquele dia, apesar de uma visão generalista sobre as manifestações, não seria a primeira vez que eu falaria com um. Todos posicionados, as manifestações começaram ocorrer, eram apenas três senhoras que trabalhavam, nós estávamos em pé na direção da porta, que com dificuldades tentávamos manter fechada a pedido das próprias entidades. Havia um revezamento espontâneo entre as pessoas que se dirigiam entre os atendimentos, nada de senhas ou filas por médiuns, apenas bom senso e um pouco de paciência. 
Durante todo o período em que se transcorreram os atendimentos, percebi, o preto-velho incorporado na dirigente da casa, mesmo durante os passes que ministrava, me encarando e vez ou outra soltando aqueles característicos risos de canto de boca, como quem dissesse ou se fizesse entender...(é hoje!). Protestei da maneira mais discreta que pude ao meu guia (primo), sendo imediatamente alertado que aquele não era o momento.

Quando minha vez se anunciou, diria, aliás, se oportunizou, a primeira conquista havia sido completada, consegui, em meio ao "jogo" de revezamento que as pessoas faziam entre os médiuns incorporados, me posicionar para tomar o passe com a senhora mais discreta que havia ali, seu banquinho de madeira o mais baixinho e a localização em um dos cantos do pequeno salão, permitiriam total discrição e até uma certa privacidade. Ao sentar-me, como segue o costume daqueles que pela primeira vez vão à qualquer terreiro, minha reação foi a mudez, então, uma simpática "Vó" me saudou: (meu relato não fornecerá a linguagem usual da linha de pretos-velhos, prefiro, deixar isso a cargo do conhecimento e vivência de cada leitor). 
- Boa noite meu filho! Como vão as coisas? 
Respondi, meio que sem jeito e sem rodeios: - Bem.
- Ah certo! Me dê licença de benzer você. 
Após alguns instantes, coisa de minuto, findando os movimentos com as mãos e acrescentando algumas risadas, ela tornou a falar: 
- Vejo que o rapaz é novo aqui né? Pois bem, gostaria de lhe perguntar uma coisa, por acaso esta casa está ao alcance do seu agrado meu filho? Está gostando do que está vendo e sentindo aqui? 
Minha reação, na verdade foi de completa perplexidade. Como uma senhora que nunca havia visto, tampouco conversado, estava incorporada de uma outra consciência e me fazia perguntas que remetiam toda a desconfiança e descrença que os dias anteriores à minha visita aquela casa haviam povoado meu imaginário e minhas conversas. Me parecia que ela havia escutado quando, no episódio do ônibus eu falara ao outro primo que iria ver como "aquilo" funcionava. Sem esperar qualquer reação ou resposta de minha parte, a preta-velha concluiu:
- Fazemos o seguinte. Já lhe dei um passe, agora, volte e pense se realmente gostou daqui, teremos outros trabalhos, caso retorne para conversarmos mais.
Agradeci, já que foi uma das poucas coisas que consegui fazer, levantei e aguardei em silêncio o encerramento das atividades aquele dia. Os fatos que sucederam esta primeira visita se confundem hoje com minha história de vida. Prefiro, guardá-las em minha memória e compartilhar apenas com aqueles que me acompanham no convívio diário...  

Talvez, alguns leitores possam me confundir e interpretar que essa passagem tente mostrar ou até mesmo transmitir, uma prova sobre alguma coisa, como se os Guias de Umbanda fossem gurus da adivinhação e da manifestação dos desejos humanos. Entendo que essas interpretações não conseguiram identificar o que realmente aconteceu, pois, disso dependia-se que cada leitor vivesse e contextualizasse as sensações e acontecimentos em torno do fato, ou, talvez, não consigam atingir as expectativas de interpretação pela inabilidade deste Editor em transcrever com mínima semelhança a sequência dos acontecidos.
Por isso, chamo atenção para outra perspectiva. Naquele momento nada me convencia não por falta de acreditar em algo, mas, com toda certeza, por me achar mais esperto e capaz, por duvidar de tudo e todos e não permitir nem admitir que as vezes um pouco de humildade e prudência são fundamentais para a construção de uma postura construtiva, sobretudo, quando, emocionalmente, precisamos nos ajustar. Com isto, insisto! Não promovemos os espíritos que nos assistem, como mentores de feitos inacreditáveis que resolvem tudo ao nosso redor. Entendamos que na maioria das vezes, nós mesmos, precisamos apenas de uma palavra ou uma pista para sozinhos encontrarmos os meios que buscamos.  

Oxalá nos abençoe!

O Editor.