Mostrando postagens com marcador Diálogo com Autores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Diálogo com Autores. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de agosto de 2017

História da Umbanda - Linha do tempo



A história não é algo abstrato, distante de nossa realidade. Ela acontece a todo o momento, sempre que nós, seres humanos, provocamos o desencadeamento de eventos alternativos à realidade existente e, quase que sempre nem percebemos as mudanças. 
Como ciência, a História tem o dever de investigar as diversas possibilidades sobre os fatos passados, mas, nunca, determinar o completo fechamento das questões estudadas, tampouco, indicar a verdade absoluta dos fatos, principalmente, porque a construção das narrativas históricas são construções humanas, e os historiadores, os pesquisadores responsáveis por "guardar" as memórias e acontecimentos.

Nossa proposta neste artigo é apresentar uma periodização da história umbandista. Para tanto, as advertências sobre  narrativas deste tipo tornam-se imprescindíveis, não fazemos apologia ao reducionismo histórico, porém, entendemos a Umbanda também como um fenômeno social, inserida em contextos próprios que transformaram realidades concretas. Por isso, as escolhas dos fatos que compõe este texto passam, exclusivamente, pela ótica particularizada deste blog, não compreendem o ponto final, tampouco, a ordem exata dos momentos. Apenas uma exposição sintetizada que cumpre a função divulgadora. Apresentarmos cronologicamente este exposto, representa apenas uma organização das ideias, a medida que nossos referenciais são algumas obras históricas produzidas para proteger a memória de nossa cultura. Porém, é nosso dever lembrar dos milhares de brasileiros anônimos que não estão nas memórias dos livros como personalidades percussoras, mas,  desenvolveram com muita fé a Umbanda por todo o país.  

LINHA DO TEMPO UMBANDISTA
⇩

 ↳1908 - Fundação da Umbanda: Advento, anunciação ou surgimento. A adjetivação é o que menos importa. É considerado fato, por inúmeras pesquisas e depoimentos que em 15 de Novembro de 1908, na cidade de Niterói - estado do Rio de Janeiro - ocorreu o marco "fundador" da religião de Umbanda. O jovem Zélio de Moraes incorporava o Caboclo das Sete Encruzilhadas (C7E) em uma sessão de espiritismo kardecista e, após diversos protestos e reprimendas pelo teor das abordagens da entidade manifestada, anunciou que no dia seguinte à casa de seu "aparelho" fundaria um novo culto para dar voz a uma grande parcela da espiritualidade renegada nos círculos espiritualistas convencionais e então estabelecidos. No dia seguinte, o Caboclo das Sete Encruzilhadas (C7E) anunciou um conjunto de proposições que norteariam a recém chegada "Umbanda" no plano terreno, batizando aquela casa de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade (TENSP). Na mesma noite manifestou-se também o preto-velho "Pai Antonio", e logo na em sua primeira manifestação incorporou elementos materiais característicos da religião: A Guia, toco ou banco e o cachimbo.
↳1913 - Orixá Malet: Entidade que se manifestou em Zélio de Moraes, para atuar na linha de frente ao combate a magia negra. Trouxe consigo a simbologia dos pontos riscados que identificavam as entidades manifestadas. Introduziu as oferendas aos Orixás e a utilização animais "vivos" para os trabalhos que desmanchavam magias.
       
↳A Expansão: É descrito por Leal de Souza no livro "O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda" publicado em 1933, que o "Chefe" - como era chamado o Caboclo das Sete Encruzilhadas (C7E) - anunciou que havia recebido a incumbência do astral superior para expandir a Umbanda com mais sete "Tendas". O historiador Diamantino Fernandes Trindade , corrobora o registro em seus livros que abordam a história da Umbanda. As novas tendas, teriam a supervisão espiritual direta do (C7E), que prepararia e autorgaria os médiuns designados à dirigência das tendas.
  ↳1918 - Primeira Tenda: "Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição", fundada em 16 de Janeiro pela médium Gabriela Soares que incorporava o Caboclo Sapoéba, com cofundação de Leal de Souza;
   ↳1925 - Segunda Tenda: "Tenda Espírita São Pedro", fundada em 5 de Março, com José Meirelles; 
  ↳1927 - Terceira Tenda: "Tenda Espírita Nossa Senhora da Guia", fundada em 8 de Setembro, por José Meirelles. Após seu desencarne, foi assumida por Durval de Souza;
   ↳1933 - Quarta Tenda: "Tenda Espírita Santa Bárbara", fundada em 27 de Junho, por João Aguiar que era médium do Caboclo Corta Vento;
   ↳1935 - Quinta Tenda: " Tenda Espírita São Jorge", fundada em 15 de Fevereiro, por João Severino médium do Caboclo Cobra Coral;
  ↳1935 - Sexta Tenda: "Tenda Espírita São Jerônimo", fundada em 15 de Maio, com o Capitão José Alvares Pessoa que era médium do Caboclo da Lua.
  ↳1939 - Sétima Tenda: "Tenda Espírita Oxalá", fundada em 11 de Novembro, com Paulo Lavois;    

↳1920 -1924- Tenda Espírita Mirim: Em 1920, Benjamim Figueiredo médium do Caboclo Mirim manifestando a entidade pela primeira vez, anunciou que os trabalhos em seu núcleo familiar voltados à doutrina de Kardec seriam à partir de então, trabalhos de Umbanda. Benjamim e o Caboclo Mirim iniciavam uma "nova" corrente umbandista, a escola Iniciática. As diversas fontes consultadas, indicam, marcos de fundação da Tenda Espírita Mirim em períodos distintos, ora em 1920, ora em 1924. O livro "Memórias da Umbanda no Brasil" de Ronaldo Linares e Diamantino Trindade discute a possibilidade dessa diferença de quatro anos, como o intervalo entre a anunciação do Caboclo Mirim e a preparação empreendida por Benjamim Figueiredo, inclusive, como membro da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade com Zélio de Moraes e o C7E.
  ↳1952 - Primado de Umbanda:Juntos, Caboclo e médium, fundaram outras tendas, participaram ativamente de movimentos federativos, congressos e em 1952 fundaram o "Primado de Umbanda", organização federativa que baseava suas atividades em: Difundir a religião e seus ensinamentos; Promoção de Formação Sacerdotal e Iniciática aos membros de terreiros filiados, integrando-os à utilização da língua Nhêngatu hierarquizando os graus de evolução espiritual contidos em sua filosofia. O legado do trabalho de Benjamim e Cabolo Mirim continuam até os dias de hoje arregimentando umbandistas por todo o país.         

↳1925 - Publicação do livro - No Mundo dos Espíritos: Leal de Souza, o primeiro autor umbandista, publica o livro "No Mundo dos Espíritos" com os textos/relatos de sua coluna "Inquérito" do jornal "A Noite". Seu trabalho era relatar as visitas à tantos centros e terreiros do Rio de Janeiro, a fim de investigar o grande fenômeno, denominado "mediunismo" na capital federal. É um marco também para Umbanda, pois, é a primeira publicação literária que diretamente faz referência ao trabalho de Zélio e do C7E, conforme capítulo " O Centro Nossa Senhora da Piedade".

↳1933 - Publicação do livro - O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda: Se em meados da década de 1920, Leal de Souza, traz pelo seu inquérito do jornal "A Noite" os relatos das visitas à inúmeros terreiros, em 1933, já umbandista praticante frequentador da TENSP e à época, dirigente da Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição, publica o primeiro livro de Umbanda. Era o primeiro compendio de textos que desmistificava os conceitos e as práticas umbandistas, significava o conceito das sete linhas de Umbanda tão debatido e controverso até hoje. Um marco inovador, corajoso e transformador.   
                
↳1930-1941- Opressão política e organização de classe: A opressão política e discriminatória era muito intensa na década 1930 - durante o governo de Getúlio Vargas-, Diamantino Trindade em "História da Umbanda no Brasil", nos refresca as discriminações, arbitrariedades e intervenções que todas as religiões dentro do espectro de centros e terreiros (Kardecistas, Macumbeiros, Umbandistas, Candomblezeiros e afins..). Segundo Alexandre Cumino em " História da Umbanda", em 1939 Zélio de Moraes orientado pelo C7E, fundou a Federação Espírita de Umbanda do Brasil (FEUB) com o objetivo de organizar a realização do 1º Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda em 1941. Além disso, aglutinava todos os terreiros filiados a TENSP congregando uma representação de classe reivindicatória que se ajudariam mutuamente para legitimar a prática da religião de Umbanda. Em 1940, a TENSP teve seu 
   ↳1941 - 1º Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda: Legitimar, organizar, oficializar e desafricanizar eram as premissas básicas do movimento que idealizara o Congresso. A Umbanda enquanto movimento ou entidade social se apresentava dentro de uma organização básica, atendendo as imposições dos contextos sociais e políticos da época que eram de extrema opressão. Assim, um conjunto de conceitos era apresentado justificando a originalidade "espírita" da Umbanda, entre eles, destacamos: Fundamentos históricos, filosóficos, científicos, culturais, doutrinários, ritualísticos. E anunciava Jesus como seu "chefe" supremo.
      ↳1947 - FEUB para ser UEUB: A Federação Espírita de Umbanda do Brasil (FEUB), passa a ser denominada União Espírita de Umbanda do Brasil (UEUB) que mesmo com muitas dificuldades, funciona até hoje.

↳1950 -Umbanda Omolokô: Tancredo da Silva Pinto (Tata Ti Inkice), conhecido por Tata Tancredo foi o principal nome do movimento Omolokô sendo o responsável por coordenar toda a estrutura política pelos movimentos federativos, quanto pelos doutrinários na condução de terreiros e publicações de livros sobre a Umbanda Omolokô, em muitas fontes é tido como o "Organizador do culto Omolokô". Defendia a origem e fundamentação da Umbanda como herança de povos africanos de Angola do grupo Luanda-Quiôco, para isso é dele a seguinte afirmativa reproduzida em tantos veículos de informação que tratam da questão...“a Umbanda é  africana, é um patrimônio da raça negra”.Tata Tancredo fundou em 1950 a Confederação Umbandista do Brasil e viajou a diversos estados auxiliando e incentivando a criação de instituições que agregassem terreiros com fundamentações provenientes de cultos afro-brasileiros praticados na Umbanda - clara oposição ao 1º Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda-, era uma verdadeira frente de resistência pelos fundamentos africanos na religião. Era também sacerdote e segundo o excelente estudo publicado no blog Uniafro teve mais de 3.566 "filhos de santo" iniciados. Outra característica importante de Tata Tancredo, foi o legado bibliográfico deixado para o movimento Omolokô e foram mais de 30(trinta) livros, alguns deles em parceria com Byron Torres de Freitas. 

↳1950-1954- Umbanda Esotérica: Através de W.W. da Matta e Silva, também conhecido como Mestre Yapacani, abriu-se um novo cenário doutrinário na Umbanda. Médium de Pai Guiné, porém, anteriormente, de Pai Cândido, utilizou-se da escrita para estabelecer o diálogo e chamar a atenção para o novo movimento - visto que muitos, inclusive, seus seguidores, consideram este um dos três maiores movimentos da história da Umbanda . Matta e Silva passou a escrever para jornais e custeou seu primeiro livro (Umbanda de Todos Nós). Era um crítico ferrenho do comércio religioso e de práticas que, segundo ele, não eram compatíveis com a doutrina umbandista. Publicou ainda mais oito obras, escreveu também o famoso texto " Sete Lágrimas de Pai Preto". A vertente Esotérica continua em atividade, maiores referências, podem ser encontradas no blog Mandala dos Orixás editado por Diamantino Trindade, e pela instituição de ensino Faculdade de Teologia Umbandista dirigida por Rivas Neto autor de livros importantes do segmento.

↳1955 - T.U.L.E.F: Fundada com o nome de "Tenda Nossa Senhora do Rosário" por conta das perseguições sofridas, a T.U.L.E.F foi importantíssima na divulgação e amplificação umbandista. Dirigida por Lilia Ribeiro, médium do Caboclo Mata Virgem e pesquisadora sobre a Umbanda. Lilia, contribuiu para pesquisas históricas em torno da história da religião, gravando depoimentos e entrevistas com Zélio de Moraes.    

↳1956- Colegiado Espírita do Cruzeiro do Sul: A criação do Colegiado aglutinou diversas lideranças de instituições e federações que pertenciam à "Umbandas" distintas,de diferentes estados e, em certos aspectos até rivais. A busca por legitimação e as disputas pela "doutrina verdadeira", em certo momento, foi relativizada. O potencial político dessa fusão era o principal objetivo, juntamente com a possibilidade da criação de uma unidade nacional em prol da cultura umbandista. Desta fusão, surgiram algumas iniciativas:
   ↳1961 - 2º Congresso Brasileiro de Umbanda: Ocorreu entre os dias 16 e 23 Julho na cidade do Rio de Janeiro no Estádio do Maracanãzinho. A empreitada que contou com uma participação interestadual, não atingiu os êxitos esperados em termos de uniformização doutrinária e ritualística. O ponto mais positivo foi a conscientização de uma ampla frente social e política que poderia unir e reivindicar os direitos sociais a todos, a medida que, a década de 1960 é uma das mais importantes para a propagação da religião em todo país.
Obs.: A partir destes eventos acima citados, entre 1956 e 1961, a Umbanda polarizou outros eventos de igual teor. No estado de São Paulo, por exemplo, a partir da criação Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo (SOUESP), entre as décadas de 1960 e 1980, os paulistas, promoveram com abrangência estadual congressos, seminários, publicações e tantos outros eventos que organizavam e propunham várias idealizações "normativas" para a Umbanda. Outras dezenas ou centenas de agremiações, associações e federações foram criadas destas iniciativas.
  ↳1973 - 3º Congresso Brasileiro de Umbanda: Ocorreu entre os dias 15 e 21 de Julho, também na cidade do Rio de Janeiro, no Estádio de São Januário. As tentativas seguiam em torno do debate sobre a doutrina e ritualística comum a todos, porém, o evento foi mais importante em outros dois aspectos. O consenso sobre a instituição do dia nacional da Umbanda (15 de Novembro) e a apresentação oficial do Hino da Umbanda.

↳1960/61- Hino da Umbanda: Letra de João Manoel Alves, a música "Refletiu a Luz Divina", foi apresentado em 1961 no segundo Congresso Nacional e, oficialmente adotado em todo o Brasil à partir do terceiro Congresso Brasileiro em 1973.  As observações sobre o hino estão bem difundidas, sobretudo, pela internet, entretanto, alguns desencontros nas informações poderão ser detectados. Em História da Umbanda no Brasil de Diamantino Trindade, encontramos capítulos distintos sobre a questão, percebe-se que o autor quando trata diretamente os aspectos históricos da música e de seu autor, aponta o segundo Congresso como marco inicial e público da obra, ao passo que, no capítulo exclusivo sobre os Congressos Nacionais, a menção faz parte no resumo sobre o evento de 1973.

↳Luta contra a Intolerância: Não é novidade que a hegemonia católica no Brasil desde os tempos da colonia, influenciou e muitas vezes incorporou o imaginário popular contra outras culturas religiosas, sobretudo, ameríndias, afro-brasileiras e espíritas. Além da cultura, os bastidores de grandes corporações sempre tiveram atuação nos meios políticos, assim, consolidavam ainda mais suas estratégias de consolidação. Nas primeiras décadas da história umbandista, as hostilidades e perseguições tiveram como protagonista a Igreja Católica. Hoje podemos inferir que os maiores difamadores estão em outros nichos do cristianismo, entretanto, a verdade é que em diversos setores principalmente os mais tradicionais e conservadores, ainda encontram dificuldades de pelo menos tolerar a religiosidade alheia. Aqui, com base em nossas pesquisas, listaremos as publicações que ao longo de décadas serviram para disseminar a intolerância contra a Umbanda: 
↳Umbanda/ Jornais e Revistas : O advento da internet e o sucesso das redes sociais foram ferramentas impulsionadoras para a democratização das informações relacionadas à Umbanda. Hoje, não há, pelo menos não vemos a possibilidade, de contabilizarmos a quantidade de jornais online e físicos, blogs, rádios, canais de vídeos e sites de cursos online elaborados por umbandistas. Todavia, se considerarmos e nos concentrarmos em estudar as produções periódicas encontraremos diversas referências. Porém, contextualizando que a abrangência era regionalizada, fruto muito das vezes, de iniciativas caseiras, das federações e associações que pouco a pouco foram se aglutinando. Aqui, não consideraremos as publicações literárias, tampouco, as publicações jornalísticas feitas por mídias de fora da umbanda, neste caso, interessa-nos listar, algumas das referências jornalísticas produzidas por iniciativas dos umbandista ligados ao seu movimento . Os volumes da "História da Umbanda no Brasil" de Diamantino Trindade e "História da Umbanda" de Alexandre Cumino, destacam algumas referências.
  • Jornal de Umbanda - 1947 
  • Boletim "A Caridade" - 1956
  • Macaia - 1965.
  • Revista "Gira de Umbanda" - 1972.
  • Umbanda em Revista - 1973.
  • Mundo de Umbanda - 1974.
  • Umbanda em Revista - 1974.
  • Aruanda - 1975
  • Tribuna Umbandista - 1976
  • Jornal de Umbanda Sagrada - 1999.
  • Jornal Aldeia de Caboclos - 2000.
  • Revista Espirita de Umbanda.  
↳Salve a Rainha do Mar ! - Festejos à Iemanjá. Décadas de 1970/80: Eventos não organizados institucionalmente por meios federativos abriram o caminho, ainda na década de 1950, para a estabelecimento oficial dos festejas à Iemanjá a partir de 1969 em Praia Grande - SP. É um marco na participação umbandista em eventos públicos. Jornais, revistas e depoimentos informam números impressionantes, em 1975, por exemplo, a cidade de Praia Grande recebeu trezentas mil pessoas (300.000). Apesar do ápice ter sido alcançado na década de 1970, os meados de 1980 reuniram quantidades significativas de adeptos. Até os dias de hoje a tradição permanece no estado de São Paulo, entretanto, descentralizada, com abrangência a outras cidades do litoral paulista e com números bem mais singelos.

↳Décadas de 80/90: Em diversas fontes, por argumentos variados,as décadas de 1980 e 1990 são apresentadas como períodos de "esvaziamento" na Umbanda. Os umbandistas eram convertidos a outros meios e deixavam seus terreiros. Alguns aspectos internos que poderiam explicar esse movimento seriam: desorganização associativa ou federativa, marginalização dos cultos (e aqui registramos as alegações dos movimentos que defendem a "normatização" litúrgica" e doutrinária da religião). Noutra ponta está o vertiginoso crescimento dos neopentecostais que, com a espetacularização midiática do discurso do ódio e da intolerância teriam, também, colaborado para desmoralização da Umbanda. A retomada da religião no fim deste período, esclarece Alexandre Cumino em - História da Umbanda um Religião Brasileira - ter sido fruto da cultura de informação através da revolução tecnológica, onde, a internet protagoniza o combate  à cultura de intolerância reorganizando e segmentando novos modelos de umbandistas.
  ↳1990/2000 -Literatura Psicografada: A literatura de Umbanda psicografada ganha novo status e aumenta consideravelmente, ajudando, assim, esse período que muitos chamam de "reconstrução" social. Em certa medida, sobretudo, pelo senso comum, esse parece ter sido um período de inauguração da literatura de Umbanda, o que não é certo, a história de nossa literatura é extensa e data os primórdios da religião. O que temos aqui, talvez, seja a popularização do segmento psicográfico. Hoje esse tipo de publicação é cada vez mais comum, porém, podemos dizer que as maiores referências dentro da Umbanda ainda nesta fase são; Rubens Saraceni (Organizador do movimento conhecido como Umbanda Sagrada ) e Norberto Peixoto (Médium de Ramatís).

↳2008 - Centenário: As comemorações abrangeram vários estados, Zélio de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas eram ou são até hoje os maiores homenageados, pela imensa gratidão e respeito que todos os umbandistas nutrem pelo advento de 1908. A redemocratização do Estado brasileiro que promulgou em 1988 nossa Constituição, balizou em termos jurídicos e políticos a efetiva legitimação da Umbanda, assim, neste 2008, Ela ganhou homenagens menções honrosas em diversas cidades do país através de suas casas legislativas. Viva a Umbanda! Viva o Brasil!

↳Instituição do Dia Nacional da Umbanda: Em 16 de Maio de 2012, a presidente Dilma Rousseff, decretou e sancionou a Lei nº 12.644 instituindo dia 15 de Novembro como data oficial da Umbanda no Brasil.


Sites consultados: 

UEUB  

Livros de referência: 

História da Umbanda uma Religião Brasileira - Alexandre Cumino.
História da Umbanda no Brasil- Diamantino Trindade (Vols. 1, 2 e 3).
Memórias da Umbanda no Brasil - Ronaldo Linares e Diamantino Trindade.
Antonio Eliezer Leal de Souza - O primeiro escritor da Umbanda- Diamantino Trindade. 
No Mundo dos Espíritos - Leal de Souza.
O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda - Leal de Souza.   
Das macumbas à Umbanda: uma análise histórica da construção de uma religião brasileira - 
José Henrique Motta de Oliveira

domingo, 9 de julho de 2017

Diálogo com Autores #05



Neste novo encontro, a coluna Diálogo com Autores, apresenta o Fernando ou Pirro D'Obá como também é conhecido. Idealizador do blog UTHIS!(Umbanda, Tradição; História e Sociologia). Em seu site, Pirro D'Obá, discute a Umbanda sob as perspectivas históricas, filosóficas e sociológicas, reflexões que fora dos centros acadêmicos não são tão comuns - mas que se registre, fazem uma falta danada - já que a grande maioria dos veículos de informações preocupam-se com outros teores de abordagem, fruto, sobretudo, das expectivas de seus simpáticos. 
A admiração e o respeito pelo trabalho que é desenvolvido no Uthis é profunda, a seriedade e preocupação em não banalizar os temas relacionados a Umbanda são características raras neste complexo meio que circulam os adeptos. Temos ainda, a satisfação de algumas publicações nossas comporem uma pequena parte de seu acervo. Além da nova relação de parceria entre os canais. 
Segue um diálogo leve, um pouco diferente dos demais. Leia, relaxe e principalmente relativize as informações. Nosso intuito maior, é provocar a semente da curiosidade, da crítica e da reflexão. Confira!

NMU-  Conte-nos um pouco, como foi seu início na seara umbandista? Está participando de algum grupamento no momento? Se sim, quais as atividades desempenha?
Pirro D'Obá - Eu fazia capoeira na adolescência (entre os 11 e 15 anos), e o mestre era filho de uma casa de Umbanda. Então eu e colegas do grupo participávamos com frequência de festividades de Cosme e Damião, Pretos Velhos, Ogum. Porém, era apenas um apresso que eu tinha; ficava curioso, aquela manifestação religiosa mexia muito comigo. Gostava das preleções, de quando alguém explicava algo sobre as imagens de Santo e Orixás, e a simplicidade daquilo tudo que remetia a algo mais leve em relação as religiões dos meus pais (judaísmo e Catolicismo). Depois só que fui entender que eu frequentava um terreiro misto, que trazia elementos do Candomblé e da Umbanda num mesmo cenário, era algo mágico pra mim, aquilo me fornecia um certo sentido metafísico.
Numa festa de Cosme e Damião aos 18 anos, me senti mal, e uma mulher chamada Sueli, me acolheu e me levou para perto de um Erê, e ali eu tive uma manifestação, comecei a chorar e me senti profundamente emocionado. Logo depois da festa, essa mesma mulher perguntou se não queria começar ir no terreiro dela, eles iam começar a dar um curso “gratuito” de magia e faltava apenas 1 pessoa para completar os 7 que elas iniciariam. Eu fui, e ali conheci a Umbanda Sagrada de Rubens Saraceni. A Sueli acabou falecendo, o terreiro precisou ser fechado, e eu segui com os cursos de magia até completar os 21 graus em outras instituições. Fui filho do terreiro em Guarulhos, Casa de Caridade Pai Xangô do Pai André, onde vivenciei uma Umbanda mais tradicional baseada nos ensinamentos de Zelio e Ronaldo Linares. E tenho, junto com outros irmãos, um grupo chamado Oca dos Capangueiros, onde nos reunimos de maneira mais plural para celebrar festividades em datas comemorativas da Umbanda com atendimentos e consultas. E o UThis que hoje, além de ser um site na internet, acabou virando um centro cultural onde nos reunimos para saraus, palestras, musicalidades e propagação da Umbanda como mensagem cultural e social, além claro de ser um local de atendimento caritativo umbandista.

NMU- Em seus escritos, publicados no Uthis, percebemos uma ideia muito clara de comprometimento com a qualidade dos textos. Como  nasceu a motivação pela escrita, sobretudo, de temas ligados à Umbanda? Seu espaço conta com mais colaboradores?
Pirro D'Obá- Saí muito cedo de casa, aos 18 anos estava morando só e tinha um perfil rebelde nessa época, gostava de andar na Praça da República e na Galeria do Rock em São Paulo, e ali encontrei alguns Hippies e Punks que liam muito. Eles eram bem mais velhos, não se entregaram ao sistema que vivemos e me ensinaram muito, me deram dicas literárias. Nessa época conheci Nietzsche, José Saramago, Sartre, Albert Camus, Gramsci, Foucault, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, entre outros. Foi uma mistura que me abriu inúmeros horizontes e muito cedo consegui me soltar em relação a preconceitos. Tinha uma banda de rock onde precisava escrever letras, e meu primeiro contato com a escrita foi aí, unindo literatura, rimas, e o conceito de “contra cultura” do punk rock.
Comecei a escrever sobre Umbanda só posteriormente, quando iniciei na faculdade de Sociologia e Política, onde todos os trabalhos e apresentações eu procurava pegar a Umbanda como pano de fundo para construir minha argumentação. Desses trabalhos saíram textos como “A origem da religião, o bem e o mal, e o livre arbítrio” e “Utopia Umbandista”, ensaios que percebi causarem um determinado incômodo nos professores e nos ateus que tinham aos montes em minha sala... Então decidi montar o Uthis, onde teria um espaço para expor essa mistura literária entre ciências humanas e Umbanda e que auxiliasse no meu próprio processo de empoderamento e de outros irmãos dentro da religião. Conto com o apoio de dois irmãos nesse projeto, que me auxiliam com questões tecnológicas (html), pesquisa, e seleção de conteúdo... E conto também com apoio de minha namorada que estuda comigo e me aguenta nas minhas loucuras, principalmente no processo de composição de texto rs...

NMU- Como é sua relação com os leitores? A repercussão das publicações são positivas? Em algum momento sofreu “ataques” por expressar sua opinião ou visão acerca de algum tema?
Pirro D'Obá- A relação é ótima, o projeto cresceu de uma forma que eu não esperava, o número de acessos ao site duplica a cada mês, as curtidas da página a cada dia me impressiona mais, e tudo isso sem patrocinar as plataformas como Facebook ou google. Tudo de maneira natural. Acredito que as pessoas percebem que tudo o que faço é realmente de coração, onde só abordo temas em que me sinto confortável em tratar, me policio muito para não cometer erros de pesquisa e se os cometo corro logo para ajustar. Existe uma sinergia muito gostosa com esses leitores que não buscam apenas a doutrina, a receita de uma mandinga, o significado, mas algo mais, um senso humanista e filosófico sobre a Umbanda. Já sofri ataques sim, tanto de pessoas de outras religiões como de gente da própria Umbanda. Percebo que o foco da crítica está no fato de que pro Uthis não existem limitações, procuramos fornecer ao leitor uma catarse realmente, uma epifania que seja capaz de transmutar o nível de consciência social do indivíduo tanto de maneira pessoal quanto coletiva. Isso incomoda, pois tem gente que barganha com a ignorância dos recém chegados na Umbanda, fornecem cursos de teologia umbandista, magia, de mirongas, de exus, tudo com um custo que se as pessoas tivessem senso crítico com certeza não pagariam.

NMU- A tecnologia democratiza e populariza as manifestações, nós de alguma maneira estamos aqui, provando isso. Como produtor de informação, qual sua avaliação acerca da qualidade e responsabilidades dos canais ligados a Umbanda? Reconhece em parte ou eventualmente, aqueles que reproduzem apenas com objetivo de comercialização?
Pirro D'Obá- Tem ótimos canais na internet que falam com propriedade e senso crítico hoje, o próprio canal de vocês é ótimo, me influenciou muito sobre a forma de pesquisa e exposição do conteúdo, já disse isso em outras ocasiões. O canal do Douglas Rainho (Perdido em Pensamentos) é ótimo, com a acidez necessária para fazer muita gente refletir sobre temas da espiritualidade e da Umbanda, e se desgarrarem de “tabus” que ainda permeiam nosso meio. Temos intelectuais com Sid Soares e Pablo Araújo que em suas páginas do Facebook estão sempre trazendo uma reflexão pertinente e muito profunda a respeito de questões existenciais do umbandista e da espiritualidade. O canal do Pai Paulo Ludogero, eu admiro demais também, de maneira simples aborda temas complexos e sem aquele folhetim demagogo que se esquiva de temas realmente polêmicos, o cara vai pro embate mesmo. Entre muitos outros, tem canais ótimos. Porém temos canais com uma outra tônica que não vejo de maneira tão positiva assim, tem gente que claramente está nesse jogo pela rentabilidade financeira, dizem que o dinheiro é pra custear o “EAD”, que é pra pagar o funcionário, mas a lucratividade está explícita em diversos pontos.

NMU- Ainda na questão tecnológica, como enxerga os cursos de formação umbandista? Teve experiências em algum?
Pirro D'Obá- Ah sim. Curso de Umbanda “pago” (seja de qual segmento for) pra mim é anti ético. E tem canais aos montes fazendo isso. Adotam a estratégia de atrair neófitos com mecanismos das mídias sociais, com mensagens de que ali a caridade, o amor e o bom senso imperam, e de repente começam com aquele inchaço de anúncios patrocinados de cursos de Umbanda em suas mais variadas ramificações. Isso está errado, e tem gente enriquecendo sim com isso, e falo com propriedade, pois sei que muitos que estão nessa vida pararam com seus trabalhos formais para viverem de renda com esses cursos (e não vivem mal não hein). E olha, deixo explícito que não sou contra cursos não, estudar é importante demais. O que encaro como anti ético é cobrarem mensalidade por um conteúdo intrinsecamente religioso, que pode-se doar de graça e contribuir para expansão de consciência de todos (inclusive de quem não tem dinheiro para custear um curso desse). Os cursos ligados diretamente a Umbanda que fiz sempre foram presenciais e gratuito, inclusive os de magia ligados a doutrina do Rubens Saraceni. Curso pago tem que ser ligado a outras linhas como: mentoria, mediunidade, empreendedorismo, espiritualidade, tarot, entre outros, mas vender cursos de Umbanda, pegar o conteúdo de um livro e transferir para um vídeo e vender como produto manufaturado, é algo feio que só funciona realmente com neófitos. Se analisarmos veremos que umbandistas mais calejados preferem montar um grupo de estudos, disponibilizar o conteúdo em plataformas gratuitas na internet. Cobrar é errado, e sou (como muitos outros irmãos) um fundamentalista em relação a esse assunto, escrevi um texto chamado “Mídias Sociais e a Umbanda” onde retrato sobre esse tema, uma espécie de teologia da prosperidade protestante tentando se enraizar na Umbanda, que é uma religião avessa a esses conceitos.
Eu mesmo fui convidado a dar curso de magia do fogo numa instituição. Quando vi que eles cobrariam R$120,00 do iniciado eu pulei fora. Como cobrar de uma pessoa por um conteúdo que a mãe Sueli me forneceu gratuitamente? Não, prefiro iniciar pessoas mais próximas, sem esse cunho monetário... Vender religião, doutrina, códigos, isso está errado. Me deram a ideia de montar um curso de teologia de Umbanda no Uthis, também pulei fora. Depois de muito pensar, preferi dar aula de filosofia mesmo que é a minha praia, minha formação acadêmica me permite a isso, onde em nenhuma aula falo de Umbanda diretamente. Pois sobre a religião umbandista, eu falo e propago conteúdo de graça no Uthis.  

NMU- Levando-se em consideração as diferentes maneiras e  ritos presentes nas manifestações umbandistas, geralmente fruto da formação cultural de seu dirigente e das entidades “Dirigentes”. Como você avalia essa realidade de múltiplas facetas tão própria da Umbanda? É a favor que se padronize os cultos, como já tentaram algumas correntes dentro do movimento?
Pirro D'Obá- Não sou a favor da padronização de ritos e cultos. Acredito muito na lei dos padrões vibratórios que se atraem. Meu padrão vibratório de repente pode me levar para uma casa de Umbandomblé e em determinado momento eu me sentir melhor numa outra casa de Umbanda Tradicional. Temos que valorizar essa pluralidade, e esse livre trânsito. Acredito que o fato do ser humano ser uma espécie que não sabe lidar essencialmente com a pluralidade, faz surgir movimentos de unificações que tentam simplificar o que é “complexo”.  Porém, sistema de crenças é complexo mesmo, sempre foi, qualquer cientista social sabe que ao estudar uma religião achará processos delicados, ramificações, bifurcações, paralelos. Acho que temos de nos preocupar em melhorar a metodologia de análise de nossa pluralidade religiosa; tentar simplesmente unificar ao meu ver é negligenciar isso. Uma pessoa que se apresenta como sacerdote precisa ser um teólogo antes de tudo, que estude desde religiões védicas, habraamicas, xamânicas, até as ramificações de matriz afro no Brasil (e no mundo), espiritualidade e sequentemente as “Umbandas dentro da Umbanda” (tem um artigo ótimo do Renato Guimarães sobre isso).

NMU- No seu texto “As opiniões e a nossa Essência”(excelente por sinal), você propõe ao leitor uma reflexão quanto a importância de buscarmos algo para além daquilo que o mundo espera que sejamos. Um exercício fundamental decorrente de uma visão “desnudada”- fazendo referencia ao termo utilizado – do mundo dos estereótipos. Em sua opinião, quais as maiores barreiras para que as pessoas se encontrem neste sentido? Não seria necessário que nós tivéssemos pensamentos reflexivos e críticos para esse despertar? E disto isso, teríamos também as opiniões sem nos importarmos com as consequências delas?
Pirro D'Obá- Para Carl Gustav Jung, na modernidade nós aprendemos que a razão e seu pleno uso nos traria uma sensação de controle a respeito das coisas e da nossa própria vida. Obviamente esse conceito (que imperou entre os séculos 17 e 19) não deu muito certo, tivemos avanços tecnológicos sim, mas o ser humano continuou com as mesmas ranhuras da espécie, que nos atormenta desde eras ancestrais. Jung diz que essas ranhuras se potencializaram com a modernidade, pois ao querermos utilizar a razão deixamos outras camadas de nossa psique em desuso ou pouco desenvolvidas. Queremos ser conscientes, lógicos, pragmáticos, porém, nessa ânsia adoecemos, perdemos a conexão com o que é nosso “em totalidade”. Muitas das tormentas contemporâneas surgem por conta disso. Não valorizamos nossos sonhos, nossas intuições, nossos presságios, nossas sensações, tudo isso por eleger a razão como mantenedora de uma ordem utópica das coisas. Tudo o que é racional depende de terceiros, depende da nossa convivência com os outros, dos livros que lemos, das aulas que assistimos, da educação que tivemos, mas, e o resto? Vemos muita gente com senso crítico apurado, que leram inúmeros livros, tem ideologias e convicções convincentes, mas que ao chegarmos perto podemos perceber que estão deprimidas, seguiram a ordem lógica das coisas e esqueceram-se de si, esqueceram da arte, da poesia, de exercer outras potências subjetivas, da alma. Penso que é necessário não cairmos nessa cilada da racionalidade. A razão é apenas uma das camadas de nossa psique que podemos utilizar, mas a sensação, o sentimento e a intuição são importantes também, nos auxiliam a desnudar. As opiniões de terceiros não teriam tanto impacto sobre o nosso ser se buscássemos essa amplitude. A capacidade de fazermos o bem para o próximo não surge apenas na educação racional, exercitar nossa sensibilidade traz a capacidade de ter alteridade também com o próximo. Moralidade e ética são absorvíveis ao ser humano em seus diversos canais psíquicos e simbólicos e não só pela razão, mas ao colocarmos apenas ela como premissa de vida, podemos nos “rasurar” achando que estamos nos desenvolvendo, dando importância demais para o externo quando que na realidade temos um oceano dentro de nós clamando para ser ouvido.   

NMU- Trazendo a reflexão para outro rumo, aquele ligado ao ser histórico e social que todos nós, invariavelmente, somos. Outro texto nos chamou muita atenção “ A Umbanda não se adapta ao umbandista; é o umbandista que se reforma com ela”. Há muita clareza em sua crítica sobre os “empreendedores” da fé que, infelizmente, também estão na Umbanda. Ao que relaciona o sucesso deles? Ausência de criticidade dos fiéis ou extrema habilidade dos que conduzem?
Pirro D'Obá- Tem uma passagem que diz: "...A quantidade de Charlatães vendendo "Deus" não me assusta. O que me assusta é a quantidade de pessoas que se dispõem a comprar o "Deus" deles..."
O umbandista contemporâneo, que tem mais anos de chão; esse cara não cai nessa lorota mercantilista. Quem cai nesses merchans que deixam a Umbanda com um ar mercadológico é o novato, é a pessoa que está chegando agora que esses mercantilistas estudam muito bem para ter como um público alvo. Não à toa eles patrocinam seus anúncios na internet vendendo curso de Umbanda a torto e a direito. O umbandista “macaco velho” não se inscreve, até porque a vida dele se oxigena ao ir no terreiro, estudar com a comunidade, ter uma vida social baseada nos seus semelhantes, em ver o doente curado, o desempregado empregado, e não em fazer o outro ficar rico a custa da minha busca espiritual.Com os novatos, os mercantilistas pintam e bordam, atraem, seduzem, fornecem o curso e no fim das contas aquele mesmo novato percebe que o conteúdo que ele pagou para adquirir está (e sempre esteve) disponível em outros canais na própria internet e de maneira GRATUITA. Umbanda não precisa de professor, a Umbanda precisa de umbandista. Um umbandista compromissado com aprendizado explora a internet para que seu conteúdo chegue em camadas diversas, auxiliando no aprimoramento da religião e dos adeptos. Porém, tem quem cobre e tem quem pague, não existe oferta sem demanda.

NMU-   O olhar crítico e a reflexão, são características indissociáveis da leitura e pesquisa. Quanto aos livros e autores, existe algum que não recomendaria? Por quais motivos?
Pirro D'Obá- Olha, até em leituras negativas aprendemos algo, temos ali a oportunidade de lidar com uma perspectiva contrária à nossa visão de mundo, e dessa forma praticar a dialética em seus 3 passos: a tese, a antítese e a síntese. Mesmos as leituras que eu não gostei eu recomendaria por esse exercício dialético que nos trazem.

NMU- Poderia, como já fizeram outros entrevistados, registrar uma lista “TOP 10” de livros umbandistas?
O espiritismo, a magia e as 7 linhas de Umbanda – Leal de Souza
Malungo - Decodificação da Umbanda – Dilson Bento
Umbanda de Todos Nós – Matta e Silva
Umbanda e o Sentido da Vida – Alexandre Cumino
Mitologia dos Orixás – Reginaldo Prandi
Umbanda e o Meio Ambiente – Giovani Martins
História da Umbanda no Brasil – Diamantino Trindade
No Mundo das Umbandas – Site ótimo que me serve como livro
Textos de Sid Soares - Que me serve como livro
Textos de Pablo Araújo - Que me serve como livro

NMU- Agradecemos a oportunidade de proporcionar ao blog e aos leitores que nos acompanham, a possibilidade de entendermos mais aspectos que fazem umbandistas, como você, e por todo o país, pesquisarem e escreverem sobre a religião. Neste último momento oferecemos espaço, sem qualquer limitação, para deixar um registro aos nossos simpáticos e amigos leitores...  
Pirro D'Obá- Primeiramente agradeço o espaço para troca de ideias. Isso é necessário.
A Umbanda não precisa de uma unificação dos seus cultos, precisa sim de união dos indivíduos que praticam e falam sobre os mais variados tipos de cultos, com respeito, serenidade. Dessa forma a pluralidade se integra, gera ideias, reflexões, e isso que é o mais bacana, saber lidar com os caminhos da liberdade e não buscar amarrar a liberdade em unificações que ao meu ver mais engessam do que produzem.
A Umbanda é ela mesma, não precisa mudar e nem se adaptar aos novos tempos, pois quem está atrás de evolução somos nós seres humanos, a Umbanda nos ajuda nesse processo. Como cada um toca seu ritual é uma questão de doutrina e estudo, não é meia dúzia de pessoas com um documento na mão que dirão o que é ou deixa de ser a “prática de Umbanda”. É preferível lermos intelectuais e estudiosos no assunto, que respeitam a diversidade. Dialogar sobre a Umbanda é ótimo! Crescer tendo a Umbanda como Mãe e Parceira é maravilhoso.Que essa revolução digital traga muito mais conquistas para nós umbandistas, que a Umbanda seja respeitada socialmente e que o preconceito seja um assunto passado, essa é a utopia que sonhamos.
Sou grato a cada pessoa que acompanha nosso trabalho no Uthis e que Oxalá abençoe a todos.
Um grande abraço a você Felipe, que admiro muito!