sábado, 23 de junho de 2018

EM BUSCA DE UMA FILOSOFIA PARA A UMBANDA




Primeiramente, faz-se necessário pontuar a importância deste “Projeto-Revista”, à medida que sua concepção, sobretudo, multiplica a oferta de escritos sobre Umbanda nas suas mais diversificadas expressões.
A relativização da oferta de textos reflexivos em termos quantitativos, tendo em vista as tendências tecnológicas utilizadas como ferramentas de relacionamentos, como sistematização de campanhas publicitárias e de produção de conteúdos, hoje é mais abrangente. De fato esse é o contexto, nisso creio que a maioria concorda. Contudo, refiro-me às contradições existentes no cerne deste aspecto. As simplificações, a reprodução de conceitos, a banalização dos fundamentos e a comercialização da crença se apresentam de forma explícita neste processo. Como nós umbandistas podemos, contraculturalmente, agir para diminuir os abismos existentes? Pensando, alguns dirão. Por isso, a produção textual independente - seja informativa ou literária - torna-se peça chave neste processo.

Sobre a Filosofia, esclareço, minha preocupação não é formar paralelos com conceitos ideias da religião de Umbanda em consonância às teorias filosóficas historicamente reconhecidas. Por exemplo, estudos que aproximem os conceitos gerais sobre “Moral e Ética” no olhar umbandista, ou seja, quais conjuntos culturais, simbólicos ou comportamentais definem o umbandista de formação em sociedade? Ou quem sabe, a Umbanda por ser essencialmente inclusiva e tolerante, possa equivaler-se por teorias políticas da filosofia. Enfim existem exemplos consistentes de que a Filosofia, pelo menos em parte está presente na religião.


Mas a reflexão por aqui, compreende a busca por um projeto filosófico generalista quando nos referimos à Umbanda. Será que é possível? Para tanto, necessitamos entender definições acerca do que é Filosofia. As variações são muitas, talvez, não exista consenso para esta definição. Para efeito de compreensão, transcrevo aqui a referência do livro “História da Filosofia” de Padovani e Castagnola, 10ª edição, 1974. “Filosofia é a ciência das causas primeiras, para resolver o problema da vida”. Em outras palavras, é a busca por resolução dos problemas sejam eles científicos, religiosos, políticos ou até individuais, pela força da razão sem dogmas e autoproclamação de verdades absolutas.
Um dos “ramos” de estudo da filosofia é a religião. Nele os pensadores se debruçaram por levantar aspectos básicos de investigações filosóficas. Para citar alguns dos mais importantes, temos: Será que Deus realmente existe? O que é a fé? Vivemos com livre-arbítrio? Enfim, este ramo filosófico preocupa-se em investigar a finitude das percepções religiosas acerca da nossa natureza.

Contudo, a Umbanda apresenta formação eclética, abarca um conjunto de valores universais sem possuir fonte comum. O fenômeno social de construção umbandista tem pouco mais de um século de vida e traz consigo significações multiculturais. Heranças africanas nos deixaram os orixás; as teorias de Kardec nos trouxeram a crença no mundo espiritual e as leis que estamos submetidos: dos povos nativos a pajelança e o ancestral conhecimento sobre a natureza; dos povos europeus a cristianização e o sincretismo com seus santos. Racionalizar a fé umbandista é entender de que maneira ela foi elaborada no plano material e em quais circunstâncias? Como está seu desenvolvimento ao longo dos anos? Quais são seus objetivos? O que ela espera do umbandista e o que o umbandista espera dela? Quem a representa seja na literatura, na ciência ou nas artes desenvolvendo suas diretrizes maiores? Ela cumpre o papel que se propôs? Talvez sejam estas as pistas para traçarmos uma investigação racional acerca dela. No mais, entendo, resumir-se tudo a uma questão de fé e de diversidade cultural. Fé sem dogmas, preconceitos ou imposições. Diversidade cultural nos conceitos, ritos e significados.

Faço votos para que a Filosofia compreenda e explique cada vez mais sobre o mundo. E que a Umbanda, como representante de símbolos e caminhos, esteja nele.



OBS.: Esse texto foi elaborado como parte de uma colaboração para o projeto Revista do Leitor Umbandista, em conjunto ao Blog do Leitor Umbandista.